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Análise – Bênção do Mito a Datena, serve para ungir Luciano Huck

”TV tem histórico de trampolim eleitoral. Bolsonaro mira SP em 202…Mas legitima adversário para 2022. Trump, grande empreendedor imobiliário, só ganhou fama nos EUA como apresentador”

O Mito falou, o Mito avisou, o Mito falou o Mito avisou: votar em apresentador de televisão sem experiência prévia como gestor público é algo perfeitamente cabível e, talvez, até o melhor a fazer. O Mito qualificou o apresentador José Luiz Datena como “a menina mais bonita da praça”, referindo-se à hipótese da candidatura de Datena à maior prefeitura do país, São Paulo. O Mito recomendou que o apresentador tomasse algumas providências, entre elas a de ter “1 vice gestor”. A benção do Mito serve para ungir –por extensão– qualquer eventual projeto político de outra estrela da tevê, o também apresentador Luciano Huck, cuja marca (mais que o nome) é constantemente cogitada para disputar a Presidência da República, inclusive contra o atual presidente.

Uma das poucas coisas que poderiam ser ditas para descredenciar Huck num eventual projeto presidencial, por aqueles que tivessem muita má vontade contra ele, seria o fato de que saltaria da tela diretamente para o Palácio do Planalto. Seria 1 argumento falacioso, como tantos em campanhas políticas, mas é inegável que Huck é 1 empresário bem-sucedido, uma estrela carismática –só que sua trajetória não ostenta nenhuma passagem por cargos públicos. Agora, com a “doutrina Datena”, esgrimida pelo Mito, nem mesmo essa ressalva pode ser desferida contra ele –especialmente pelo atual presidente. Huck acabou ganhando 1 endosso indireto de onde menos se esperava.

Tantas vezes criticado, para não dizer trucidado, por suas declarações inusitadas, o presidente Bolsonaro não mereceu no caso de Datena os justos e merecidos elogios por sua postura desprovida de qualquer mácula de preconceito. O presidente está coberto de razão: ser presidente da República ou prefeito de São Paulo não é 1 concurso público. Não passa quem gabarita provas teóricas. É eleito aquele que convence mais e melhor o eleitorado. Não foi assim com o próprio João Doria, aliás, outra estrela do show business que estreou na política sem antes ter disputado qualquer cargo eleitivo? A rigor, o 01 do Mito, Donald Trump, embora grande empreendedor imobiliário, não ganhou fama nacional nos EUA como apresentador de programas de entretenimento de massa? Jamais tinha sido nada na política e seu primeiro cargo foi assumir a cadeira mais importante do planeta.

Então, por enquanto, a novela está no seguinte capítulo: Luciano Huck não é e nem será candidato a presidente em 2022. Mas, se for, seria uma “facada” (reconheço a infelicidade de metáfora) nos projetos de reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Presidente que, aliás, acaba de endossar a legitimidade de uma candidatura como a de Huck ao abençoar à de Datena. A hipótese da candidatura de Huck revela 2 fatores relevantes na paisagem da política, vistas do distante ponto deste ano de 2019. O primeiro é que o grande desafio do presidente Bolsonaro hoje é se firmar em seu próprio campo, a direita, os conservadores, sabe-se lá como chamar, o que Huck representa 1 fantasma real de 1 nome não de esquerda que poderia congregar fatias do eleitorado do centro e tomar o lugar do presidente num eventual 2º turno (contra 1 candidato de esquerda).

Haveria, ainda, uma hipótese ainda mais impressionante. Durante o regime militar, era comum a fragmentação da oposição ser chamada de “as esquerdas”. Pois agora na democracia surge potencialmente o fenômeno de “as direitas”: haverá a direita do governador Doria, de Huck, do atual presidente e já imaginou numa remota hipótese se 2 candidatos das “direitas” fossem para o segundo turno? Daí porque o perfil mais amplo de nomes como o de Huck são extremamente magnéticos no xadrez eleitoral (ao menos no hipotético). Porque poderiam ser ao mesmo tempo “conservadores” e atrair votos contra os radicais do conservadorismo. Quando o presidente elogia o apresentador Datena mirando conquistar a prefeitura da maior cidade do país, o efeito rebote é legitimar o perfil de 1 dos seus maiores potenciais concorrentes. Mas Luciano Huck jura que não será candidato. É compreensível. Ele não é político. É apenas 1 apresentador né?

 

 

 

 

Por Mario Rosa, 54 anos, é 1 dos mais renomados consultores de crise do Brasil. Foi o autor do prefácio do primeiro plano de gerenciamento de crises do Exército Brasileiro. Atuou como jornalista e consultor.

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