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Opinião – A criminalização na oposição é uma aposta no risco

”Presidente incentiva polarização. Mas este é 1 caminho sem volta. Bolsonaro tem nas mãos a estrutura do Estado e a responsabilidade por todos os brasileiros”, lembra Traumann

O presidente Jair Bolsonaro entrou em águas turvas nesta 2ª feira (28.out.2019), ao postar na sua conta oficial no Twitter 1 vídeo mostrando 1 leão cercado por hienas. A legenda informa que o leão é o próprio presidente, enquanto as hienas que o atacam representariam o STF, a CNBB, o PT, o PSDB, o próprio PSL,  a ONU, a OAB, a mídia, o MST, a CUT e o MBL. O leão Bolsonaro é salvo por outro leão, o “conservador patriota” que simboliza o eleitor bolsonarista. A moral do vídeo é “vamos apoiar nosso presidente até o fim, e não ataca-lo. Já tem a oposição para fazer isso”. É o retrato do líder que precisa do povo para derrotar as forças do establishment. No final do dia, diante da repercussão do vídeo, Bolsonaro apagou o post.

No sábado (26), Bolsonaro já havia cruzado a linha ao reproduzir no Twitter 1 vídeo fraudado no qual homens fantasiados de membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) falam em luta armada e citam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de outros políticos sul-americanos, como 1 dos seus “comandantes”.

O vídeo havia sido disparado pelos deputados Daniel Silveira (PSL-RJ) e Bia Kicis (PSL-DF). Ela apagou a postagem depois de ter sido informada de que se tratava de notícia falsa. Depois de a deputada reconhecer a fraude, o guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, reagiu assim: “Pouco importa que, em si, o vídeo das Farc seja fake. O sentido do que ele expressa é verdade pura. As Farc SÃO o inimigo principal do Bolsonaro, e têm inumeráveis colaboradores no Brasil”.

Quando a verdade para atacar 1 adversário político pouco importa, bem, temos 1 problema. Na campanha eleitoral, o bolsonarismo se notabilizou por calúnias e teorias da conspiração –do kit gay à fraude nas urnas eletrônicas. Mas, sejamos realistas, a sinceridade não é o forte das campanhas. Manter esse discurso uma vez eleito presidente, no entanto, é outra história.

Bolsonaro já usou o pejorativo “paraíba” para se referir aos governadores do Nordeste, xingou o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, de “espertalhão”, disse que o governador de São Paulo, João Doria, e o apresentador Luciano Huck  “estavam mamando” nos governos petistas por terem comprado jato executivo a juros subsidiados pelo BNDES, acusou ONGs ambientais de terem provocado crises que o seu governo não conseguia gerir, ofendeu o presidente francês e sua mulher, tentou interferir nas eleições argentinas e fez 1 sem-número de ameaças às empresas de mídia.

Como disse o cientista político Carlos Nobre ao jornal O Globo “a eleição dele (Bolsonaro), como político antissistema, trouxe a reboque 1 descrédito da própria ideia de oposição. Quem discorda dele é visto como ‘sistema’. Ou seja, não tem credibilidade de saída”.

Nas últimas semanas, 2 eventos paralelos foram o pretexto para Bolsonaro subir perigosamente esse tom de confronto contínuo, a possibilidade de o ex-presidente Lula ser solto por uma decisão judicial, e assim voltar a ser 1 protagonista político, e as manifestações populares no Chile. O presidente anunciou ter pedido ao Exército ficar em prontidão para eventuais protestos no Brasil e, sem nenhuma prova, passou a espalhar que as manifestações chilenas eram articuladas pelo governo venezuelano de Nicolás Maduro. É visível a preocupação bolsonarista de que uma eventual soltura de Lula dê a faísca para protestos contra seu governo.

O medo vermelho é 1 combustível do bolsonarismo. É impossível passar 1 dia sem 1 post, 1 vídeo ou uma declaração da família Bolsonaro ou de seu guru sem citar o Foro de São Paulo, a ameaça comunista e o bolivarianismo. Ok, provavelmente o oposto também seja verdade. É impossível passear pelos perfis dos líderes da oposição sem ler que Bolsonaro é fascista e tem uma agenda autoritária. Há uma diferença crucial, no entanto: Bolsonaro tem nas mãos a estrutura do Estado e a responsabilidade por todos os brasileiros.

De fato, hoje o único movimento social capaz de causar convulsão no Brasil não é da oposição, mas o dos caminheiros, que com incentivo do próprio Bolsonaro geraram caos nas cidades e afundaram a economia em 2018.

Bolsonaro tem o direito de reafirmar seus compromissos com os eleitores, grande parte fervorosos antiesquerdistas. Mas isso não lhe dá o direito de usar a cadeira presidencial para incentivar paranoias sobre estar sendo prejudicado pelo STF ou pelo Congresso, imaginar levantes populares revolucionários ou inventar conspirações midiáticas.

Ao tentar acuar todos que discordam dele com 1 discurso hidrófobo, Bolsonaro parece apostar num impasse institucional nas eleições de 2022. A criminalização da oposição incentiva uma polarização sem volta, no qual adversários passam a se tratar como inimigos. Vítima de 1 atentado covarde nas eleições passadas, Bolsonaro sabe na pele o risco que está semeando. A democracia se baseia na legitimidade da discordância, seja ela de esquerda, de direita, de centro, de cima ou de baixo.

 

 

 

Por Thomas Traumann, 52 anos, é jornalista, consultor de comunicação e autor do livro “O Pior Emprego do Mundo”, sobre ministros da Fazenda e crises econômicas. Trabalhou nas redações da Folha de S. Paulo, Veja e Época, foi diretor das empresas de comunicação corporativa Llorente&Cuenca e FSB, porta-voz e ministro de Comunicação Social do governo Dilma Rousseff e pesquisador de políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp

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