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Opinião – Censo Agropecuário derruba narrativa da esquerda agrária

”Textos do IBGE causam confusão. Tecnologia é quem manda no campo. Instituto provocou, na opinião pública, uma confusão sobre a realidade agrária do país”, diz Xico Graziano

Finalmente saiu o novo Censo Agropecuário do IBGE. Os resultados mostram 1 extraordinário avanço tecnológico no agro. As notícias, porém, quando divulgaram, foram negativas. Por que isso aconteceu?

Por culpa do próprio IBGE, que favoreceu distorções de seus dados estatísticos. Acontece que, concomitante à apresentação dos dados, foram publicadas 3 análises oficiais, todas adversas ao mundo rural. Daí, viraram manchetes. Tortas.

Eis os artigos publicados pelo IBGE:

  1. “Número de estabelecimentos que usam agrotóxicos sobe 20,4%”.
  2. “Com aumento da mecanização, agropecuária perde 1,5 milhão de trabalhadores”.
  3. “Em 11 anos, agricultura familiar perde 9,5% dos estabelecimentos e 2,2 milhões de postos de trabalho”.

Há 1 evidente viés depreciativo nas chamadas deles. Fora os equívocos que trazem. Quanto à primeira matéria, por exemplo, houve uma sonegação de dados. Basta olhar o gráfico abaixo, elaborado pelo próprio IBGE.

Percebam que o aumento (20,4%) verificado na última década, entre os estabelecimentos rurais que utilizam agrotóxicos, não compensa a queda observada entre 1995 e 2006. Mais. Notem que em 1980 houve 1 pico histórico.

Ou seja, o número de estabelecimentos rurais que usam agrotóxicos hoje (31%) é menor que há 37 anos (39%). Pergunto ao IBGE: como se explica isso? O fenômeno é real, ou metodológico? Qualquer que seja a resposta, essa informação deveria ter sido destacada pelos pesquisadores do IBGE.

No 2º artigo, ele poderia ter sido denominado “Número de tratores aumenta 50% em 10 anos no agro”. Esse foi o aumento da tratorização detectado pelo novo Censo Agropecuário. Não se conhece nenhuma agricultura do mundo que tenha mostrado esse avanço tecnológico em período tão curto. É sensacional.

A mecanização traz, em consequência, a redução no emprego de trabalhadores que realizam tarefas manuais. A tendência acomete o agro como qualquer outro setor da economia. E não tem nada de lamentável. Ou alguém acha que ainda deveríamos carpir a roça na enxada?

Na 3ª reportagem, a redução da “agricultura familiar” se deveu ao reenquadramento dos estabelecimentos rurais, imposto pela lei 11.326/2006. Ou seja, houve uma reclassificação dos produtores, 1 fato metodológico. Não relacionado à produção.

Fica claro, lamentavelmente, que o IBGE provocou, na opinião pública, uma confusão sobre a realidade agrária do país. Poderia representar 1 caso típico de visão, ou atitude, positiva ou negativa, como naquela historinha do copo com água até a metade.

Tudo indica, porém, que o caso é mais grave, configurando 1 viés político, em prejuízo do conhecimento técnico. Inaceitável em uma agência pública de caráter acadêmico. Números não têm ideologia.

Vou sugerir aqui outras 3 manchetes que poderiam ter sido oferecidas pelo IBGE na divulgação do Censo Agropecuário/2017:

  1. “Produtividade rural cresce mais no arroz com feijão do que na soja”

O impensável resultado se encontra em editorial do Estadão, que ressaltou grande incremento de produtividade física nas lavouras brasileiras. E, ao contrário do que muitos imaginam, as culturas de subsistência básica mostraram melhor desempenho que a soja, considerada uma commodity de exportação. O rendimento médio do arroz cresceu 60%, do feijão, 46% e da soja, 30%.

  1. “Área cultivada cresce junto com as matas nativas dentro dos estabelecimentos rurais”.

Verificou-se no período de 11 anos, de 2006 a 2017, crescimento de 14% na área ocupada com lavouras temporárias, que passaram para 55,7 milhões de hectares. Ao mesmo tempo, as matas nativas dentro dos estabelecimentos rurais cresceram 12%, atingindo 112,2 milhões de hectares. Mais produção, mais proteção ambiental. Agroambientalismo na veia.

  1. “Agricultura familiar não produz 70% dos alimentos no Brasil”.

O levantamento do Censo Agropecuário 2017 mostra que as propriedades consideradas familiares respondem por 23% do valor da produção agropecuária do país. O maior destaque fica por conta da mandioca: 80% da produção cabe aos familiares.

No feijão, porém, a participação da agricultura familiar, que era de 69,6% em 2006, caiu para 42% em 2017. Quer dizer, a agricultura empresarial passou a dominar a produção de feijão e a garantir a segurança alimentar das massas urbanas.

Muitos acreditam, e alguns repetem como mantra, que 70% da produção de alimentos vem da agricultura familiar. Nunca foi verdade. Em 2014, o conceituado prof. Rodolfo Hoffmann, da Unicamp, publicou artigo, onde resumia assim a questão: “autoridades afirmaram que a agricultura familiar produz 70% dos alimentos consumidos no Brasil. A afirmativa é falsa. O valor monetário de toda a produção da agricultura familiar corresponde a menos de 25% do total das despesas das famílias brasileiras com alimentos”.

Mas aqueles 70% haviam se transformado num mito, uma arma utilizada para atacar o agronegócio. Desta vez, o novo Censo Agropecuário, de forma inequívoca, derrubou a principal narrativa da esquerda agrária.

Falta agora os jornalistas acordarem para a realidade do agro nacional. Pouco importa se o agricultor é pequeno, médio ou grande, se é familiar ou empresarial: quem manda no campo é a tecnologia.

 

 

 

 

Por Xico Graziano, 65, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano.

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