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Opinião – O que Macri e Piñera ensinam

”Quem vota por ideologia na América? Revezamento entre Bachelet e Piñera no Chile é exemplo de que ideologia não decide eleição na América Latina”, escreve Britto

A equipe do ministro Paulo Guedes e os principais assessores políticos do presidente Bolsonaro (os que não estiverem muito ocupados com a guerra diária de desaforos por Twitter) deveriam dedicar 1 tempo especial ao que está acontecendo na América Latina.

Para muitos cientistas sociais, nosso continente tem sido palco das chamadas ondas ideológicas –com simultâneas chegadas (ou partidas) ao poder de partidos e lideranças conservadoras/liberais ou progressistas/esquerdistas. Assim, por exemplo, as eleições de Piñera no Chile, Macri na Argentina, Bolsonaro no Brasil teriam significado uma guinada da população em favor do liberalismo econômico e de uma agenda restritiva em relação a costumes, sustentabilidade e respeito à diversidade. Assim como Lula/Dilma, os Kirchner, Evo e Correa teriam representado o oposto, pouquíssimos anos antes.

A tese das “ondas” reconhece, com razão, a ocorrência de reações e posturas disseminadas pelo mundo em relação a temas globais –o meio ambiente, a revolução digital, a fragilização da política convencional, a profunda mudança nos padrões de comportamento e uma indignação comum diante da corrupção e dos desvios éticos.

Por mais que verdadeiros, esses fatores, provavelmente, não sejam nem suficientes nem preponderantes para explicar as alternâncias (desejáveis) no poder na América Latina.

Primeiro, porque o voto ideológico não é majoritário. Tentar definir o Brasil, a Argentina ou o Chile como países com uma estável preponderância a”esquerdista” ou “conservadora, de direita” seria uma ofensa à matemática e à história. Ao longo das eleições destes últimos 50 anos, quando o continente se reencontrou aos trancos e barrancos, com a democracia, o voto que guarda fidelidade à ideologia sempre refugiou-se e limitou-se às margens do espectro político, raramente ultrapassando os terços, não importa se à direita ou à esquerda. O fato de o peronismo ser 1 rótulo em que parece caber qualquer tipo de produto político confunde a análise, mas não muda os fatos. Talvez o Uruguai pudesse, como exceção, ser lembrado como 1 País onde existe uma constante maioria de centro-esquerda, ainda que, para isso, se devesse lembrar que os sucessivos governos de lá mesclam com
competência uma postura progressista em costumes e política externa, por exemplo, com práticas claramente liberais no campo econômico.

O voto definidor de eleições não vem da ideologia. Os argentinos desesperados com a situação econômica criada pelo populismo dos Kirchner não hesitaram em abandoná-los por Macri e agora trazê-los de volta pela mesma e simples razão: sua vida não melhorou.

O recente rodízio Bachelet-Piñera ou significa uma inacreditável guinada ideológica a cada 5 anos ou, claramente, representa a busca ora em 1 lado, ora em outro de melhoria das condições de vida. Com Bachelet, estudantes ocuparam as ruas exigindo reforma universitária. Piñera vê as mesmas ruas ocupadas por centenas de milhares exigindo uma reforma geral na vida chilena.

O sucesso, ainda que cadente, de Evo Morales decorre da sua retórica de esquerda ainda que com contorcionismos frequentes ou do sucesso de uma política em pouco diferente do credo liberal?

Voltemos ao Brasil e a Guedes. A gritaria ideológica que se tornou nosso som ambiente por conta das redes sociais é enganosa como base para conjecturas eleitorais. Haja o que houver, Bolsonaro e a direita têm os seus fanáticos cativos, mas estes são minoria até entre os eleitores dele. E não importam os fatos, haverá petistas fiéis dispostos até a negar a corrupção em seus governos como existem bolsonaristas que veem a terra plana. Também são minoria.

O verdadeiro jogo político e eleitoral (porque define vencedores e derrotados), porém, não passa por aí. A social democracia de Fernando Henrique venceu quando vitaminada pela melhoria de emprego e renda, via Plano Real. E perdeu quando esgotado seu efeito perceptível, foi substituída pela promessa “fome zero” de Lula que, por sua vez, acabou derrotado, via Dilma, pelo merecido fracasso da “nova matriz econômica”. Aliás, nunca é demais perguntar se Collor e Dilma, em tudo opostos, mas iguais no impeachment, teriam sido derrubados se fosse melhor a situação econômica ao final de seus governos.

O que vem pela frente não deve, em essência, ser diferente. A guerra Bolsonaro-PT, turbinada pela provável soltura de Lula, serve e muito aos propósitos dos 2. Mas não define o futuro político de nenhum dos 2. Se a economia, com seus primeiros sinais de retomada, ganhar, por conta de uma maior sensibilidade da equipe de Guedes para emprego e renda, efeitos concretos e positivos no cotidiano do brasileiro comum, Bolsonaro poderá manter o Poder. Ao contrário, resultados pífios em emprego e distribuição de renda serão sempre o terreno mais favorável para vitórias do lulismo.

Esse quadro maniqueísta também se alimenta da impotência de 1 centro social- democrata que, em muito parecido nisto com a equipe Guedes, propõe reformas necessárias mas, salvo o Real, não consegue sintonizar e dialogar com a população usando o único idioma que ela, justificadamente, domina –a melhoria da qualidade de vida.

Macri e Piñera estão aí para lembrar: quem quiser vencer deve pregar para os seus como tática para mantê-los unidos e aguerridos. Para ganhar a eleição, porém, é preciso falar e agir para os outros, as maiorias. Ou em vez de discutirmos “ondas ideológicas” teremos “de volta outro velho frequentador das análises políticas latino-americanas: o efeito Orloff…

 

 

 

 

Por Antônio Britto Filho, 66 anos, é jornalista, executivo e político brasileiro. Foi deputado federal, ministro da Previdência Social e governador do Estado do Rio Grande do Sul.

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