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Opinião – Forças Armadas: Profissionalização seria a primeira vítima do autoritarismo

”…esses velhos soldados não receberam bem as declarações do deputado Eduardo Bolsonaro, exumando o fantasma do AI-5 como trunfo da campanha permanente do seu pai”

As altas patentes das Forças Armadas são solidamente contrárias a toda e qualquer interrupção do processo democrático, pois muitos desses oficiais assistiram de perto a como o prolongamento do regime autoritário levou a partidarização para dentro da caserna, solapando os pilares institucionais da hierarquia e da disciplina.

O general-presidente Ernesto Geisel (período 1974/79)decidiu abrir o regime não por ‘instinto democrático’, mas para restaurar esses pilares e retomar o caminho da profissionalização militar. Em poucas palavras, salvar a corporação do esfacelamento.

Originariamente, o lento, seguro e gradual plano distensionista de Geisel e do seu principal conselheiro, o general e chefe da Casa Civil, Golbery do Couto e Silva, contemplava uma retirada ordenada do governo, mas não uma saída definitiva do poder. A estagflação, iniciada em 1980 e turbinada pelo estouro da dívida externa desde que o chairman do Fed chutou para cima a taxa de juros dos Estados Unidos, a fim de conter a inflação de dois dígitos durante o governo Carter, frustraria esse projeto: o descontentamento de amplas parcelas do empresariado e das classes médias, segmentos que haviam sustentado entusiasticamente a intervenção militar cerca de 15 anos antes, valeram-se do espaço aberto com o fim da censura aos principais veículos de comunicação para vocalizar seus descontentamentos, corroendo as bases sociais do regime e rachando o seu bloco político-parlamentar. Assim, a liberalização controlada acabou atropelada pela democratização.

A campanha das Diretas Já! não logrou seu propósito, mas os saldos de mobilização que produziu foram suficientes para levar a chapa Tancredo/Sarney à vitória na eleição indireta no Colégio Eleitoral. A transição seria facilitada pela falta de interesse, de condições emocionais e mesmo de convicção autoritária do último general-presidente, João Figueiredo (período 1979/1985).

Daí em diante, os militares recuaram profundamente para os quartéis. Esse isolamento político de 3 décadas, ironicamente, valeu-lhes um prestígio que varia na razão inversa da desmoralização da classe política, dos partidos, do Congresso.

Mesmo assim, duvido que Villas-Bôas, Heleno, Mourão e Ramos, que testemunharam essa história por dentro, aceitarão passivamente mais um retorno desse ciclo. Para eles e outros oficiais-generais das três forças, o valor do profissionalismo, garantia da disciplina, da hierarquia, da blindagem da caserna em face da partidarização da caserna , se sobrepõe a qualquer outro.

Por isso, tenho certeza de que esses velhos soldados não receberam bem as declarações do deputado Eduardo Bolsonaro, exumando o fantasma do AI-5 como trunfo da campanha permanente do seu pai. Eles têm, também, pleno conhecimento de uma incômoda conclusão da literatura comparada de ciência política sobre relações civis-militares: quanto mais baixa a patente dos protagonistas de um golpe fardado, mais truculenta tende a ser a repressão dele decorrente e, portanto, mais difíceis se revelam as perspectivas de uma posterior reconciliação nacional: os golpes comandados por coronéis costumam ser mais violentos do que aqueles encabeçados por generais; majores golpeiam mais duro que os coronéis; e capitães, mais duro ainda.

 

 

 

 

Por Paulo Kramer é professor aposentado de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), assessor parlamentar e analista de risco político.

 Imagem em destaque acima, mar.1964 CPDOCJB/Folhapress 

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