Opinião – Mudança climática não discrimina

”Mudança climática não discrimina entre rico ou pobre, norte ou sul. 38% dos americanos já sofrem efeitos. Áreas desenvolvidas não estão imunes”, diz Júlia Fonteles Em maio deste ano, a professora da Universidade de Brown Elizabeth Rush lançou o livro Rising: Dispatches from the New American Shore, que relata as consequências do aumento do nível …

01/12/2019 00:04



”Mudança climática não discrimina entre rico ou pobre, norte ou sul. 38% dos americanos já sofrem efeitos. Áreas desenvolvidas não estão imunes”, diz Júlia Fonteles

Em maio deste ano, a professora da Universidade de Brown Elizabeth Rush lançou o livro Rising: Dispatches from the New American Shore, que relata as consequências do aumento do nível do mar nas comunidades costeiras dos Estados Unidos. Sua pesquisa revela as graves consequências causadas pelo aumento do nível do mar e como esse fenômeno afeta muito mais gente do que se imagina. A Cúpula da Mudança Climática da ONU estima que, com o aumento das temperaturas, mais geleiras estão derretendo, levando a um aumento da superfície do mar entre 61-110 cm até o final do século. Embora o número não pareça muito alto, uma alteração dessa proporção na média da superfície marítima pode trazer consequências irreversíveis em várias regiões litorâneas. Países-ilhas como as Maldivas podem deixar de existir em 80 anos e a alteração da composição de regiões costeiras nos EUA e na Europa será afetada drasticamente. Segundo Rush, a mudança climática é um assunto referente a todos e deve ser tratada de maneira simples e democrática.

Na maioria das vezes, quando organizações multilaterais se referem a refugiados do clima, a imagem atribuída é a de pessoas em países subdesenvolvidos e desprovidos de capitais e recursos para apaziguar tais crises. Pouco se fala sobre as grandes cidades como Nova York e Hong Kong que também sofrem do mesmo mal. Em Rising, Rush traz à tona certos estados e comunidades nos Estados Unidos que sofrem constantes ameaças causadas pelo aumento da superfície do mar. O problema de enchentes na costa americana antecede aos anos 70. Como parte do crescimento econômico e urbano, algumas atividades começaram a interferir no processo natural dos pântanos. A composição de diques artificiais e o aterramento de rios para construção de estradas vêm alterando o ecossistema há décadas, levando a redução da fauna e da flora dessas regiões. Vale relembrar que os pântanos são ecossistemas essenciais para o combate à mudança climática, pois armazenam ¼ de CO2 da terra. Isso significa que um acre do pântano absorve quase 15 vezes mais carbono que um acre da floresta Amazônia.

Uma pesquisa realizada pela Universidade de Yale revela que 38% dos americanos dizem já ter presenciado pessoalmente os efeitos da mudança climática e acreditam que outras pessoas provavelmente já viveram situações parecidas. Os dados, porém, mostram uma divergência curiosa na opinião dos americanos quando se trata de sua própria percepção em relação às pessoas que estão sujeitas a riscos da mudança climática. Segundo o estudo, 42% dos americanos acreditam que pessoas e países com a renda mais baixa serão severamente afetados pela mudança climática, enquanto somente 14% acreditam que eles próprios serão diretamente impactados pelo fenômeno. Com o aumento da frequência de incêndios, enchentes e furacões, o contingente de afetados tende a crescer, independentemente da sua renda ou nacionalidade.

O jornal americano The New York Times publicou uma reportagem em maio 2016 sobre os primeiros refugiados do clima nos Estados Unidos. A cidade Isle de Jean Charles, no estado de Louisiana, recebeu quase 48 milhões de dólares do governo para o deslocamento dos residentes, devido ao alto risco de enchentes na região. Nos últimos 50 anos, Louisiana perdeu para o mar uma área equivalente ao estado de Delaware. Essa situação reduziu atividades de pesca e colheita na região, levando a uma crise econômica que impediu moradores de adquirirem recursos necessários para seu descolamento. Foi necessária a ação do governo para que os moradores pudessem ser realocados para áreas seguras no interior do país.

Na Califórnia, o governo estadual atualmente financia o projeto South Bay Salt Pond Restoration, para evitar que situações parecidas aconteçam. Situado na área da baía de São Francisco, a iniciativa é o maior projeto restaurador do pântano da costa oeste americana, com o objetivo e recuperar 40.000 acres do ecossistema. A construções de diques horizontais que buscam assegurar a retomada natural do ecossistema são algumas das tecnologias em desenvolvimento para recuperação das áreas. Considerada uma das regiões com o valor imobiliário mais alto do país, projetos como o de South Bay são bem-vindos por toda a população do estado. Eles recebem financiamentos robustos das grandes empresas de tecnologia que trabalham juntamente com o estado para evitar desastres ambientais.

Quando se trata de aquecimento global, tanto as Maldivas, país com PIB per capita de 10,2 mil dólares por ano e o estado da Califórnia, estado americano com o PIB per capita de 58,62 mil dólares por ano, correm riscos ambientais parecidos. A mudança climática não discrimina entre rico ou pobre, norte ou sul.  É certo que países e pessoas com renda mais alta tem acesso a mais recursos e, portanto, com ajuda da tecnologia, podem adiar os efeitos devastadores do aumento da superfície do mar. Porém, é imprescindível entender que esse fenômeno afeta a todos e que as soluções devem se estender de forma uniforme.

 

 

 

Via Poder360