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Opinião – Política envenenada é complicador na recuperação da economia

”Tensões políticas e institucionais. Atividade não passa ilesa. Pacote de Paulo Guedes pode sofrer efeitos de constante tensão institucional provocado pelo Clã Bolsonaro”, avalia Kupfer

Embora sempre apareçam tentativas de separar a política da economia —ou vice-versa—, essa é uma impossibilidade que os fatos históricos já cansaram de desmentir. Não há hipótese de crescimento econômico saudável, com a devida difusão de bem-estar, em ambiente de conturbação política. Do mesmo modo, quando a economia teima em hibernar ou não disseminar benefícios, crescem as chances de deterioração política, como está agora mais claro do que nunca.

No caso do Brasil de Bolsonaro, 1 ano depois de sua eleição e de 10 meses de governo, ainda não se tem a economia em ordem, mas vivem-se crescentes tensões e confusões na política. Eis aí uma equação que não costuma fechar ou que fecha mal.

Sinais de que a política está formando 1 caldo com potencial para complicar ainda mais a economia estão aí para quem quiser ver. Área externa, meio ambiente, balbúrdia nas próprias hostes partidárias, ataques à imprensa, insinuações autoritárias e anti-democráticas — é amplo o cardápio sob o fogo do presidente e de seu núcleo duro, capitaneado por seus filhos.

Não se duvide que a economia se ressentirá, por exemplo, da posição isolacionista adotada pela diplomacia de Bolsonaro. Depois do pega-pega com o presidente francês, Emmanuel Macron, e com a chanceler alemã, Angela Merkel, em questões ambientais, a biruta do Itamaraty e de Bolsonaro se voltou para os vizinhos na América do Sul.

As declarações do chanceler Ernesto Araújo sobre a vitória peronista nas recentes eleições presidenciais na Argentina são inacreditáveis. Enquanto Bolsonaro não cumprimentava o eleito, Alberto Fernández, Araújo escrevia em rede social que “forças do mal” celebravam uma vitória cujos “sinais são os piores possíveis”.

Nem que se tratasse de eleições em Tonga ou Vunuatu, pequenos países do outro lado do mundo, sem histórico de relacionamento comercial com o Brasil, esse tipo de atitude poderia ser aceita. Mais ainda com o vizinho que, até muito recentemente, era o 3º maior parceiro de negócios brasileiros no exterior, ocupando o 1º lugar entre os importadores de manufaturados.

Não é só na área externa que o governo tem armado confusões. Um vídeo publicado no Twitter de Bolsonaro, retratando-o como 1 leão acuado por hienas, causou profundo mal-estar institucional. Entre as hienas, além de partidos políticos, inclusive o seu próprio PSL, o vídeo apontava a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e outras instituições, culminando com o STF (Supremo Tribunal Federal).

O caso provocou reações duras de ministro do STF e declarações de repúdio no Congresso. A estocada, com mensagem claramente anti-democrática, da qual Bolsonaro, como é de praxe, se desculpou, foi pouco diante do que viria logo depois, em reação a uma reportagem veiculada no Jornal Nacional, da TV Globo, envolvendo acusados de assassinar a vereadora Marielle Franco e insinuando algum tipo de relação deles com Bolsonaro.

Na madrugada de Riad, na Arábia Saudita, onde se encontrava na última etapa de uma viagem de 10 dias ao Japão, China e países do Oriente Médio, Bolsonaro protagonizou 1 vídeo de 22 minutos, no qual, descontrolado, colocou-se como vítima de 1 complô para desestabilizá-lo e ameaçou, com xingamentos, não renovar a concessão da TV Globo. No dia seguinte, já em Brasília, determinou o cancelamento das assinaturas do jornal Folha de S.Paulo no governo federal.

Já não bastasse esses ataques à democracia e à liberdade de imprensa, o filho 03, Eduardo, deputado com pretensões de liderar o braço brasileiro de uma ultra-direita internacional, aproveitou uma entrevista num canal do Youtube, nesta 5ª feira, para sugerir 1 fechamento político, com a adoção de algum tipo de AI-5. O fechamento deveria ser a resposta se manifestações populares, como as que pipocam atualmente mundo afora, em especial no Chile aqui do lado, chegassem ao Brasil. Novos pedidos de desculpas vieram depois de uma forte repercussão negativa, sem conseguir desfazer o mal-estar.

Não é possível que tal onda de tensão institucional passe em branco na economia. Altas na Bolsa, dólar contido, cortes nos juros e inflação no chão não passarão de espuma se entrar água no chope do crescimento e do emprego, que ainda estão longe de uma retomada. Instabilidades políticas são veneno na veia tanto dos investimentos quanto da boa e eficaz condução das questões econômicas no Congresso.

Às vésperas do envio pelo ministro Paulo Guedes de 1 prometido pacote de medidas para reforçar cortes de gastos públicos, as condições para a sua tramitação não são das melhores. Depois da aprovação da reforma da Previdência, em que houve sintonia entre Guedes e as lideranças da Câmara e do Senado, tudo indica que as novas propostas do governo não receberão o mesmo tratamento de parceria no Congresso.

Antes mesmo dos episódios de confrontação política desta semana, as novas prioridades de Guedes e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estão se estranhando. Maia, de 1 lado, quer fazer andar a reforma tributária, tema que Guedes, depois das críticas à ideia de ressuscitar uma CPMF, jogou para 2020 (ou para as calendas). Guedes, de outro lado, dá prioridade à reforma administrativa do setor público, o que Maia considera que poder esperar.

De concreto, o pacote do governo, que deveria chegar esta semana no Congresso, ficou para a próxima. Já os temores de que Bolsonaro não tem verdadeira consciência do seu papel à frente da Presidência da República, estes se consolidaram.

 

 

 

Por José Paulo Kupfer, 70 anos, é jornalista profissional há 51 anos. Escreve colunas de análise da economia desde 1999 e já foi colunista da Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo. Idealizador do Caderno de Economia do Estadão, lançado em 1989, foi eleito em 2015 “Jornalista Econômico do Ano”, em premiação do Conselho Regional de Economia/SP e Ordem dos Economistas do Brasil. Também é um dos dez “Mais Admirados Jornalistas de Economia”, nas votações promovidas pelo site J&Cia. É graduado em Economia pela Faculdade de Economia da USP

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