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Opinião – Loquacidade e comunicação pública

”A palavra dos governantes que mascara e esconde põe em questão o chão da vida política democrática dada pela verdade factual”

Por qual razão o Presidente da República e alguns dos que o cercam apresentam-se sempre tão loquazes?  Essa garrulice – tormento dos que no governo tratam do relacionamento com a imprensa e a sociedade – é premeditada, ou tratou-se de um improviso que foi tomando raízes nas práticas e hábitos da administração pública?

Há algum tempo venho me fazendo esses tipos de perguntas, desde que ficou claro que os excessos verborrágicos da campanha eleitoral não ficariam para trás. Na verdade, só fizeram prosperar na esfera pública – a meu ver, muitas vezes de maneira contrária aos interesses do País – após a  posse de Bolsonaro na Presidência da República.

Não me refiro aqui à abundância de declarações que possam emanar dos políticos filhos do Presidente, na medida em que cumprem mandatos parlamentares. Nessa condição, podem falar o que bem entenderem, pois suas palavras não empenham o Governo e nem mesmo o Presidente, mas somente a si próprios.

Espera a cidadania responsável que o espaço de reinado da verbosidade em excesso venha a se reduzir, acreditando que as responsabilidades próprias dos governantes acabarão por domesticar suas próprias palavras. A incontinência declaratória é caminho seguro para o descrédito e um risco para a estabilidade econômica e política de um país.

A comunicação de governos com suas respectivas sociedades, mesmo nessa nossa era de instantaneidade e universalização do acesso à informação, deve continuar a se pautar por regras que têm menos a ver com a comunicação propriamente dita do que com a ética e a transparência que devem permear todas as atividades da gestão pública.

Comunicação espalhafatosa raramente é comunicação verdadeira, muitas vezes não passa de ruído, percebido como uma tentativa de transformar em fatos o que muitas vezes não passa de propaganda ou de opinião.

Devemos ter sempre em mente o que nos ensinou o ex-Chanceler Celso Lafer em magistral artigo no Estadão (20.7.2008), de que ‘a democracia, que pressupõe o respeito pela cidadania e o controle e a responsabilidade do poder, requer o direito dos governados a uma informação exata e honesta’. A palavra dos governantes que mascara e esconde põe em questão o chão da vida política democrática dada pela verdade factual. Excesso de versões levam à apatia, ao cinismo, à indiferença que minam a confiança exigida pela democracia, ensina-nos Lafer.

 

 

 

 

Por Pedro Luiz Rodrigues é embaixador aposentado e jornalista. Ex-porta-voz do Ministério da Fazenda e do Ministério das Relações Exteriores. Dirigiu a sucursal do jornal O Estado de S. Paulo em Brasília.

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