Amazônia Análise Artigos Bioenergia Carbono Destaque Meio Ambiente Mundo ONGs Opinião Proteção dos Animais Sustentabilidade

Opinião – Não existe almoço grátis no planeta

”Demanda por energia aumentou. Demanda por petróleo também. Redes sociais são centro da vida. Geram muita emissão de CO2”, explana Hamilton

Como relata o pesquisador Geoffrey West em um livro fundamental para entender o mundo moderno, um ser humano precisa de algo como 2.000 calorias por dia para se manter vivo, o que é equivalente, em termos de energia, a uma simples lâmpada incandescente de 100 Watts.

Porém uma das marcas centrais da civilização, especialmente depois da Revolução Industrial, é o ritmo com que demandamos cada vez mais energia do planeta para atender às necessidades reais e simbólicas criadas pelas sociedades modernas.

Se olharmos para os dados globais de consumo de energia, veremos que sua tendência ao longo das décadas é de aumento constante. Hoje sugamos três vezes mais energia elétrica por pessoa no mundo do que há 60 anos, por exemplo. A demanda mundial por petróleo é o dobro de 50 anos atrás.

O que faz sentido: na medida em que a urbanização e a qualidade de vida foram aumentando nos países, foi necessário ter uma infraestrutura crescentemente mais sofisticada para oferecer serviços educacionais, de saúde, comércio e toda a parafernália da vida moderna.

No nível individual, isso se traduziu em eletrodomésticos, automóveis, celulares, café em capsula, produtos alimentícios que chegam de avião e todas as quinquilharias produzidas do outro lado do mundo. Também se traduziu na sofisticação (e encarecimento) de “experiências”, como viagens, e de eventos marcadores de status, como festas de aniversário ou casamento.

Um aspecto interessante do avanço civilizatório é a existência de ciclos de inovação tecnológica progressivamente mais curtos e mais consumidores de energia (ainda que a eficiência energética aumente com o tempo). No paradigma atual, a era digital, temos dados cada vez mais pesados, que exigem redes de transmissão e armazenamento cada vez mais potentes.

Tudo hoje é instantâneo e chega em qualquer lugar. Serviços de streaming passam por uma explosão na sua oferta. A pornografia online veio pra ficar. Redes sociais passaram a ser o que a pracinha e a janela de casa foram no passado: o centro da vida social.

Pode não parecer, mas tudo isso demanda energia, muita energia.  O que gera muita emissão de CO2, alimentando as mudanças climáticas. Só o setor de tecnologia de informação, vital para o streaming, a pornografia e as redes sociais, ao que tudo indica já emite mais CO2 do que toda a aviação mundial.

Viramos uma espécie de homo energeticus, vivendo em sistemas socioeconômicos sofisticados, criados por nós mesmos, e que dependem de um fornecimento crescente de recursos energéticos e minerais finitos. O jogo há muito tempo deixou o campo da biologia. Um americano médio demanda, por exemplo, algo como a energia biológica suficiente para alimentar doze elefantes.

ENTROPIA

Praticamente toda a energia que consumimos vem do Sol – dos combustíveis fósseis ao alimento que nos sustenta. Antes de descobrirmos o fogo, o Sol era a fonte direta e inesgotável de energia para todas as plantas e animais da Terra.

Era um sistema aberto, mas que passou a fechado quando nós começamos a usar a energia acumulada em biomassa, carvão e combustíveis fósseis, ao mesmo tempo em que a população mundial passou a crescer mais do exponencialmente. Aí passamos a jogar uma espécie de pirâmide financeira com o planeta, utilizando a energia e os demais recursos como moeda.

O ponto central de um sistema fechado é que ele necessariamente gera entropia, um termo técnico que significa, na prática, crescente deterioração. O sistema gera cada vez mais subprodutos como poluição (CO2, por exemplo) e passa a demandar mais e mais recursos para lidar com seu objetivo intrínseco (crescimento sem fim, no nosso caso) e com as consequências de sua degradação. Em um sistema assim, o colapso é inevitável.

O que não precisaria ser inevitável é a estupidez humana coletiva, que se manifesta na forma como lidamos com o problema. Um exemplo: no ano 2.000, apenas 18% dos veículos vendidos mundialmente eram os glutões SUVs. Hoje já são 42%.  Isso não vai terminar bem.

Obviamente, a civilização moderna tem um histórico fantástico, pois promoveu em menos de 200 anos uma verdadeira revolução no combate à mortalidade infantil, à pobreza e ao sofrimento humano de maneira geral. Eu me lembro de ler com consternação, em um paper clássico da psicologia da década de 70, uma observação, feita de passagem, de que a leucemia infantil era (então) incurável. Hoje a maioria esmagadora dos casos já é curável.

Se o destino do planeta já está traçado por conta da inércia dos sistemas socioeconômicos, ainda temos alguns poucos graus de liberdade em relação a como iremos nos adaptar ao cenário catastrófico que se aproxima.

O desafio é manter e ampliar o progresso naquilo que importa, ao mesmo tempo em que lidamos com uma adaptação que vai ser bastante desconfortável. A entropia é cruel: acabou o almoço que parecia grátis.

 

 

 

Por Hamilton Carvalho, 47 anos, estuda comportamento humano e sistemas sociais complexos. É doutor em Administração pela FEA-USP, mestre em Administração pela mesma instituição, membro da System Dynamics Society e da Behavioral Science & Policy Association

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *