Category Archives: Artigos

Encontre artigos do Brasil inteiro sobre diversos temas que repercutem em nossa sociedade

Artigos

Opinião – Piketty:”Se a Alemanha não pagou as dívidas, por que a Grécia deve pagar”

Publicado por

A Grécia, sob o governo do partido de esquerda Syriza, decidiu por referendo popular não pagar as dívidas neste dia 5 de julho de 2015. Dias antes, em 27 de junho, o economista francês Thomas Piketty deu uma entrevista ao jornal alemão Die Zeit, de Hamburgo.“A Alemanha nunca pagou suas dívidas”, disse o autor do livro “O Capital no Século XXI”.

Em uma entrevista feita pelo jornalista Georg Blume, Piketty relembrou seus estudos a respeito da desigualdade econômica e aprofundou sua crítica aos planos de austeridade na União Europeia recorrendo à história recente.

“O passado da Alemanha, neste contexto, deveria ter um grande significado para os alemães de hoje. Olhe para a história das dívidas nacionais: Reino Unido, Alemanha e França já estiveram na mesma situação da Grécia atualmente, e eles já estiveram até mais endividados. A primeira lição que podemos tirar da história do endividamento governamental é que nós não estamos enfrentando um problema novo. Há muitas formas de pagar dívidas, e não apenas uma que Berlim e Paris quer que os gregos acreditem”, frisou o economista.

Piketty sinalizou que o povo grego não deveria se submeter aos interesses da Europa e especificamente dos alemães, que representam o maior interesse do bloco, baseando-se em seu próprio estudo de 200 anos de história macroeconômica em diferentes regiões globais, incluindo o Brasil. O calote dado não é, necessariamente, uma novidade. Piketty critica o excesso de concentração de renda, que pode ser prejudicial ao crescimento dentro do capitalismo.

“O que me afetou justamente quando eu estava escrevendo é que a Alemanha é realmente o melhor exemplo singular de um país que, no decorrer de sua história, nunca pagou sua dívida externa. Nem depois da Primeira ou da Segunda Guerra Mundiais” diz.

“No entanto, é frequente a pressão para que outros países paguem, como aconteceu depois da Guerra Franco-Prussiana de 1870, quando o Estado francês precisou de inúmeros reparos e os recebeu. O governo francês sofreu por décadas com essa dívida. A história das dívidas públicas é cheia de ironias. Raramente segue nossos ideais de ordem ou justiça”.

O economista reconhece que os gregos cometeram erros na condução econômica, mas considera as demandas alemãs de austeridade fiscal uma “piada”. Quando Hitler foi derrotado em 1945, a dívida pública da Alemanha era de 200% do seu PIB. Na década seguinte, em 1953, a conta caiu para 20% com o perdão de inúmeros credores, incluindo a própria Grécia e o Reino Unido. Do montante de dinheiro, o pagamento de 60% chegou a ser cancelado, com a renegociação do restante.

O economista se diz “vacinado do comunismo” porque é crítico com experiências como foi a União Soviética, mas ele não perde a oportunidade de questionar os modelos neoliberais ou excessivamente conservadores.

O DCM teve a oportunidade de entrevistar Piketty em novembro de 2014. “É justo alguém votar em Dilma porque recebe o Bolsa Família”, disse para mim o autor de O Capital do Século XXI, embora tenha reconhecido que faltam transparência no estado brasileiro e taxação das grandes fortunas.

Se a Alemanha não pagou dívidas, por que a Grécia deve pagar? O economista aponta que o perdão das dívidas é uma forma de preservar instituições democráticas que ele acredita fundamentais para garantir o futuro da sociedade. Essa preservação inclui a própria União Europeia e o euro, a unidade monetária que permanece ameaçada depois de praticamente sete anos de crise econômica no continente, que não afeta somente os gregos, mas também espanhóis e portugueses.

Para ele, a Alemanha lucra com grandes empréstimos que custam altos impostos aos países. A solução que se apresenta hoje seriam reuniões diplomáticas como as que ocorreram no final da Segunda Guerra.

A recessão grega, segundo os estudos de Thomas Piketty, foi de 25% do PIB, o que equivale à situação da França e da Alemanha entre 1929 e 1935, antes mesmo da ascensão de Adolf Hitler e da devastação da Europa.

“Não podemos impor que as novas gerações paguem por décadas pelos erros de seus pais. Os gregos, sem dúvida alguma, cometeram grandes erros. Nós temos que olhar para a frente. A Europa foi fundada no perdão das dívidas e no investimento do futuro, não numa ideia de penitência infinita. Precisamos nos lembrar disso”.

Por Escritor, jornalista e blogueiro. Autor do projeto Geração Gamer, que cobre jogos digitais feitos no Brasil.
Artigos

PT e Liberalismo Econômico

Publicado por

Em quatro eleições presidenciais, o discurso mais forte das candidaturas Lula e Dilma foi contra privatizações

Em quatro eleições presidenciais, o discurso mais forte das candidaturas Lula e Dilma contra José Serra, Alckmin e Aécio Neves foi contra as privatizações ou concessões feitas no governo FHC. Se vê agora mudanças concretas do PT sobre esses assuntos.

Publicou a imprensa, como primeiro caso, que a Petrobras pretende fazer a abertura de capital da BR-Distribuidora ou até mesmo ‘a venda de uma fatia da empresa a um parceiro estratégico‘.

A Petrobras pretende ‘vender ativos‘ entre 2015 e 2019 para levantar 57 bilhões de dólares. A BR-Distribuidora é que toma conta do transporte e venda de combustível. São mais de sete mil postos pelo Brasil.

Pela compressão dos preços dos combustíveis, fala-se em perda de 80 bilhões de reais, mais os escândalos e perda de credibilidade no mercado, a empresa precisa de dinheiro para investimentos futuros.

Vai passar uma fatia para a iniciativa privada ganhar dinheiro, portanto. Quem ia fazer isso seriam os adversários políticos, dizia o PT.

Mostrou à imprensa também que a Caixa Econômica vai levar à Bolsa a Caixa Seguridade, que toma conta dos seguros. Pretende levantar 7.5 bilhões de reais com essa movimentação junto ao mercado.

Funcionários da Caixa, ressabiados com essa abertura, estão expondo faixas contra uma suposta privatização com os dizeres, ‘nem que a vaca tussa‘. Usando a frase que a candidata Dilma usou na eleição para dizer que não mexeria em direitos trabalhistas e previdenciários.

Deve ser aprovada no Senado uma proposta que retira a obrigatoriedade da Petrobras em ter 30% de todas concessões ganhas por empresas estrangeiras no pré-sal. A Petrobras vai concordar, não tem dinheiro para investir os 30% de sua cota em cada concessão.

Aquela frase da candidata Dilma de que o pré-sal era ‘o bilhete premiado‘ pode ser também para a iniciativa privada.

Outra bandeira dos governos do PT deve sofrer alteração também. É o conteúdo nacional na fabricação de componentes, principalmente para sondas e plataformas petrolíferas, para exploração do pré-sal.

Essas sondas e plataformas ficarão mais caras com componentes nacionais do que se comprá-los no mercado aberto internacional. Como a Petrobras tem o caixa curto não pode dar ao luxo de pagar mais por algo que pode pagar menos.

Além de tudo que a empresa vem passando, tem ainda a queda no preço do barril de petróleo no mundo. Antes passava de cem dólares o barril, hoje deve estar perto dos 60 dólares.

A presidente anunciou também um número grande de concessões para a iniciativa privada de portos, aeroportos, ferrovias e rodovias para os próximos anos. MT, como exemplo, se beneficiaria da concessão de Sinop para o Pará, de Rondonópolis para Goiás e da ferrovia Bioceânica.

O discurso e prática do PT deu uma guinada para o liberalismo econômico. O que encabula é a oposição não aproveitar para, como fez o PT por tantos anos, faturar politicamente com a nova situação.

ALFREDO DA MOTA MENEZES é historiado e analista político em Cuiabá,
pox@terra.com.br
www.alfredomenezes.com

Artigos Novidade

O Inventor do Jornalismo Investigativo

Publicado por

Todos nós, jornalistas modernos, somos de alguma forma filhos do editor inglês William T. Stead (1849-1912). No final do século 19, Stead inventou o que se conhece hoje por “jornalismo investigativo” em publicações como “The Pall Mall Gazette” e “Review of the Reviews”.

Como jornalista, ele promoveu cruzadas de grande repercussão contra doenças sociais como a prostituição infantil. Num caso que chocou a Inglaterra vitoriana, ele mostrou que era possível comprar por 5 libras uma garota de família humilde e colocá-la em bordéis. Por causa dessa reportagem, a idade mínima para o sexo consentido na Inglaterra mudou de 13 para 16 anos.

Foi também o primeiro editor inglês a colocar uma entrevista nas páginas de um jornal.

Num artigo, ele mostrou a hipocrisia que havia por trás da condenação de Oscar Wilde, em 1895, pela prática de sodomia. Stead notou que, se em vez de seduzir moços, Wilde tivesse colecionado moças, “e assim gerado filhos bastardos desajustados”, ele seria celebrado e não condenado.

Stead, com seu inovador “jornalismo de ação”, foi uma inspiração para o homem que mais que ninguém representa a imagem histórica do chamado magnata da mídia, o americano William Randolph Hearst, que serviu de base para o clássico do cinema Cidadão Kane, de Orson Welles.

Stead sustentava que o editor era “a maior força da política”. Ele acreditava nas virtudes do “governo pelo jornalismo”. Segundo ele, os jornalistas poderiam aplicar “um estimulante ou um narcótico” na mente dos leitores e com isso moldar, ou manipular, a opinião pública. “O primeiro dever de todo homem de verdade, se ele acredita que a opinião pública está equivocada, é tentar mudá-la”, dizia.

Messiânico, achava que a imprensa tinha mais condições de promover o bem público do que o Estado. O editor, para ele, tinha que ser tão capaz quanto um “primeiro-ministro”. Sua fé na imprensa era total. “Um homem sem jornal é um ser pela metade, despreparado para a batalha da vida”, escreveu ele num ensaio sobre o futuro do jornalismo.

É muito provável que Roberto Marinho em seus mais de 90 anos de existência jamais tenha ouvido falar de Stead. Mas foi ele quem mais incorporou, no Brasil, os atributos de influência que Stead enxergava no jornalismo.

O mundo visualizado por Stead, em que o paraíso poderia ser alcançado caso seguidas as orientações de editores como ele próprio, só começou a desmoronar com a emergência da internet, quase 100 anos depois de sua morte. A internet, ao dar voz e influência às multidões, mitigou o poder do estimulante e do narcótico dos editores.

Um intelectual dos tempos de Stead definiu-o assim: “Nele havia uma mistura rara de força intelectual com convicção moral, idealismo com o utilitarismo, imaginação viril e praticidade – e tudo isso fez sua visão se traduzir em realidade. Determinação sem limites, coragem moral soberba e energia incansável marcaram toda a sua carreira jornalística.”

Cabe aos jornalistas, dizia Stead, “dar profundidade ao inarticulado gemido daqueles que não têm voz”. “Um jornal, nesse sentido, é um apóstolo diário da fraternidade, um mensageiro que traz boas novas para os que jazem nas trevas e na sombra.”

Stead era escritor, além de jornalista. Renascentista nos interesses, dedicou os últimos anos da vida a pesquisas psíquicas. Lutou pela paz tenazmente num movimento chamado “Guerra contra a Guerra”. Foi indicado para o Nobel da Paz algumas vezes, e era dado como quase certo que o ganharia finalmente em 1912.

Mas neste ano ele embarcou rumo aos Estados Unidos no Titanic. Os relatos sobre sua conduta no Titanic atestam sua generosidade e bravura. Stead ajudou a embarcar crianças, mulheres e velhos nos botes. Quando o último bote partiu, ele foi para a sala de fumantes da primeira classe do Titanic. Ali foi visto pela última vez, fumando e lendo um livro.

Montaigne escreveu que a estatura de um homem se mede pela sua atitude diante da morte. Stead por essa medida, e não apenas por ela, foi um colosso.

Por Paulo Nogueira – DCM